Todo ano é assim, chega fevereiro e começo minha corrida frenética para ver todos os indicados ao Oscar antes da cerimônia, este ano marcada para dia 4 de março. Não é que eu dê tanto valor assim aos vencedores, mas como sou opinadeira, gosto mesmo é de criticar as escolhas. Ano passado mesmo fizemos um mini bolão e assistimos à cerimônia (comas presenças internacionais do Hugo e Carlos) regada a pipocas e vestidos não tão chisques assim. Diversão dobrada, já se vê.
Eu gosto da telona, da pipoca, do ritual de ir domingo de noite ver o que está passando. É um jeito tranquilo de terminar o fim de semana e me preparar para o que me espera na segunda. Filme para mim é no cinema. Pro vídeo ficam só aqueles que não valeriam a pena ou os que perdi por uma razão ou outra. Mas divago.
Dos 25 mais mais, só assisti oito até agora e devo dizer apostei em poucas indicações. Como diria minha mãe "se só tem tu vai tu mesmo". Como farei para ver três filmes/semana até a cerimônia nem eu sei. Verdade seja dita, 2009 não foi um bom ano para Hollywood. Nem pra mim. Os dramas não são mais os mesmos e as comédias estão cada vez mais previsíveis. As trilhas sonoras não empolgam e até o Clint Eastwood decepcionou. Vou dar o desconto que eles merecem pois, como disse, ano passado só com muito Pristiq.
Dizem que o tempo cura todas as feridas, mas estudos recentes mostram que, apesar das mulheres terem a fama de mais amorosas, os homens perdoam com mais facilidade. As mulheres, em geral, se apegam mais a mágoas. Para piorar o cenário, cada vez que pensamos ou falamos sobre uma ofensa ainda não perdoada, nossa pressão sangüínea (rã rã... com trema) se eleva a níveis de ataques cardíacos. Não importa se a ofensa foi algo trivial ou um assassinato. O importante é o valor pessoal que cada um dá ao acontecimento, a reação que tem.
Óbvio que a falta de perdão só magoa o oprimido. O opressor, na maioria das vezes, conseguiu o que queria e moved on. Mas como nos livrar da sede de vingança, de justiça? Como dar as costas para essas pessoas e seguir com nossas próprias vidas e não deixar o ódio nos comer pelas beiradas? A forma que a Bíblia encontrou para isso foi entregar nas mãos de Deus dizendo, "Minha é a vingança" e o Velho Testamento nos dá uma boa idéia de como a vingança divina pode ser implacável.
Aqui, no mundo real em que vivo, perdão é um conceito, um mandamento, uma idéia, uma possibilidade, uma ferramenta de proteção em uma encruzilhada. E eu não sei se estou pronta para o teste.
A pessoa é a encadernação das alergias, isso não é novidade, mas é contradição. Sim porque a pessoa A-D-O-R-A coisinhas perfumadas e especiais de lojas respeitáveis como a Lush, Bath and Body Works, Natura e The Body Shop. Esses creminhos de banho, de pele, de rosto, de pé que dão vontade de você comer ou de se comer depois que usa. Daí que a pessoa vai para Niuórque achando que ia ser turista e só, né? Errado. Achei minha alma gêmea na Sabon.
Sabe aquele exfoliante que tira todo o mau olhado, as energias negativas e invejosas da secretária do escritório, que lava a alma e limpa os olhos? Sabe aquela loção que faz com que você não consiga parar de se cheirar, que aumenta auto-estima até de urubu? Sabe aquela sensação de que você nunca mais vai ser a mesma sem TODOS os produtos da loja? Affffffffff, é isso. Conta no vermelho, dó de abrir os vidrinhos e usar os produtos porque eu sei bem que só vão me encontrar rolando no chão in love with myself depois disso. É isso. As outras lojinhas, tadinhas, perderam o allure.
Para quem não tem idéia do que está perdendo, eles têm sítio, bloque e, rã rã, wish list para dar de presente para as amigas precisando aumentar o astral. Tá bom, eis o link http://sabonnyc.com/
Parece mentira, mas quando você se interna em um hospital mental não imagina que vai conviver com pessoas esquizofrênicas, bipolares, traumatizadas, cheias de tiques e taques. Você pensa assim que vai para uma "casa de repouso", meio tentando se auto-enganar. Basta chegar na triagem que você percebe que o negócio é mais embaixo: tem revista de cada peça de roupa, cortam os cordões das suas calças, te tiram os pentes, os anéis, o dinheiro, os cadarços, as xuxinhas de cabelo, o xampu, o sabonete em barra, a borracha... e vão te tirando tudo até que fique só você e a sua loucura. E a dos outros, obviamente. É meio maluco (sem trocadilho) que das coisas com as quais eles ficaram, minhas pantufas sejam o que mais me fazem falta. Sim, porque minhas pantufas eram meu pedacinho de casa no manicômio, minha "trademark", gostoso ficar olhando pras luzinhas piscando quando eu fazia barulho. Acima de tudo, minhas pantufas eram alegres e isso não se encontra em "casas de repouso". Não adianta, já procurei por todo canto e não encontro nada a altura. Esse inverno promete.
Meu Natal não tem árvore, nem guirlanda, nem presépio, nem beijo debaixo do musgo, nem peru, nem panetone, nem lareira, nem chaminé para o Papai Noel entrar, nem meias para encher, nem cartões, nem música com harpa ou a Simone cantando, nem enfeites, nem countdown. É praticamente um natal judeu.
Sorry for waiting until the last minute to write my X-mas list but you know that this has been a crappy year, especially now that Comcast decided to actively sabotage my plans to get in touch with anyone online (I thought you should know just in case they sent you a list themselves). Anyway, there are some things I intended to buy for me but didn't, so I included them on my list, since you know that, even though I made many horrible decisions this year and did not focus on myself, now I have been a good girl and am following the program. You do not need to grand me everything but I just wanted to give you some options:
The first thing I'd really like is an I-phone since my current mobile is dying from an unknown cause and is most likely to abandon me quite soon. Then, there are the yoga mat and ball (not the pink ones, though. You know quite well that is not my color). I could also use new black sneakers since the ones I had got tainted during my hospitalization and finally, a bathroom scale so that I can count the kilos I did not lose and a new watch to help me keep track of all my new EA meetings and support groups.
I want to thank you for the wonderful friends I have who, even from far, make a point to check on me every single day. Please look on their list with love and care.
Já procurei por toda parte: debaixo da cama, nas gavetas, nos armários, na cozinha, na garagem, no porta-luvas, nas bolsas, nos bolsos, dentro dos livros, no quartinho de bagunça, nas malas, dentro dos potes, nas caixas amareladas e agora no estojo e não consigo achar minha auto-estima. Saiu sem dar satisfação e até agora não voltou. Fico preocupada, pensando se ela vai voltar para casa ou se me abandonou sem deixar bilhete ou pelo menos dizer que ia comprar cigarro. Nem levou roupa, pode estar passando frio nessa chuva, ou ter encontrado outro lugar para morar. Podia pelo menos dar um telefonema, mandar mensagem ou emelho. Vai ver que voltou para o Brasil e está se acabando em uma praia (embora ela nunca tenha sido praieira). O jeito é esperar aqui do ladinho do telefone.
Pra que, eu te pergunto? Pra que o trabalho, o tempo, os livros, a terapia, o hospital, as mensagens, os remédios, os telefonemas, o messenger, os e-mails? Pra que tentar? Pra que explicar e pedir desculpas? Pra que continuar a colocar um pé diante do outro e recomeçar a cada manhã? Se o novo tem lugar cativo onde eu antes vivia, se eu não tenho justificativa melhor para o que eu fiz, e mesmo que eu tivesse... pra quê? E se isso importasse, nem eu saberia dizer. "Mas isso não importa mais não", não é mesmo?
"É mais fácil cultuar os mortos que os vivos Mais fácil viver de sombras que de sóis É mais fácil mimeografar o passado que imprimir o futuro..."
A primeira vez que pisei em um consultório de uma dotora da cabeça eu tinha 18 anos, planos para mudar o mundo e a certeza de que não pertencia a ele, confirmada por aqueles que me cercavam em casa, na igreja, nas festinhas e na faculdade. Onde eu pertencia, no entanto, ainda era uma idéia vaga.
"Não quero ser triste como o poeta que envelhece lendo Maiakóvski na loja de conveniência Não quero ser alegre como o cão que sai a passear com o seu dono alegre sob o sol de domingo..."
Passados os anos e alguns dos sonhos de grandeza, quando eu comecei a viajar e conhecer o mundo como só nos livros eu tinha imaginado, um mundo onde dinheiro não era problema, de festas e riquezas e novidades, achei por um tempo que minha vaga idéia de onde eu pertencia começava a tomar forma. Cidadã do mundo, sem casa, nem pertencimento.
"Nem quero ser estanque como quem constrói estradas e não anda Quero no escuro como um cego tatear estrelas distraídas"
Foi só alguns anos atrás que entendi o que eu precisava para pertencer a algum lugar. E, assim como a idéia demorou para tomar forma, demorei alguns anos para construir minha casa. Com visão. Com ajuda. Com companhia. Com amor.
"Veja o mundo passar como passa uma escola de samba que atravessa Pergunto onde estão teus tamborins? Sentado na porta de minha casa A mesma e única casa A casa onde eu sempre morei"
Alguém me contou que os romanos diziam que "nossa casa está onde está nosso coração". Hoje está tudo lá: a cadeira de balanço, os retratos na parede, a mesa onde servi amigos e estranhos, as almofadas costuradas à mão pela minha mãe, os pequenos artigos de decoração cuidadosamente alocados, as gavetas vazias e meus livros em uma caixa. Eu não moro mais lá, mas é lá onde eu sempre morei e ela sempre morou em mim.
Deixa-me cuidar de você como o bom samaritano. E te achar na estrada e cuidar de suas feridas com óleo e especiarias e perfume, uma a uma, até que elas se fechem e cicatrizem e não sejam nada mais do que uma leve lembrança da minha queda. E deixa eu vigiar teu sono, te cobrindo de beijos e abraços, te assegurando que a tempestade passou e chegou a hora do descanso. Deixa eu passear minhas mãos pelo teu corpo e recobrar a memória da tua pele e cheirar seus cabelos e me intoxicar com seu perfume. Deixa eu reparar o meu dano, o meu erro, minha queda e cantar minha verdade até que seus ouvidos consigam acreditar nela novamente. Deixa eu te conquistar, te cercar de carinhos, te cobrir com o que posso de oferecer. Não é muito, eu sei, mas é completamente teu.
Talvez o livro mais lido da Bíblia seja os Salmos, quase na totalidade atribuídos a Davi. E Davi é talvez o personagem mais falado e querido no Velho Testamento. Davi foi o rei humano, aquele que começou como pastor matando o gigante, o músico da corte do rei, o chefe dos exércitos, o que caiu nos encantos da mulher casada, e ainda assim, o homem "segundo o coração de Deus".
Davi tinha essa humanidade de começar um salmo dando louvores a Deus, chegar no meio e amaldiçoar os inimigos e terminar pedindo perdão a Deus, contrito. Foi ele quem perguntou "Por que estás atribulada, minha alma?" e foi ele também quem andou pelo vale da sombra da morte e não temeu, pois a vara e o cajado de Deus guiavam. A vara, para os pastores, é pra colocar as ovelhas no caminho e o cajado para ajudar na caminhada. Nenhum dos dois dá prazer, mas são eles que consolam o salmista.
Hoje eu entendo melhor o "não temerei mal nenhum". Na verdade, quando se está no vale, há pouco que possa ser pior do que estar lá, portanto não se teme o mal. Você começa a aprender a dar graças ao Deus que dá e toma de volta. E se contenta com o mistério, mesmo que não entenda.
Eu só sei amar cuidando. Na minha confusa cabeça, se eu amo uma pessoa, preciso dar a ela o melhor de mim: a melhor comida, a melhor casa, o melhor carinho, o melhor programa... e tudo absolutamente, intensamente, completamente, cem-por-centomente Marília. Foi assim que aprendi a amar e é assim que sei ser amada. Agora, depois de 35 anos, me falam que eu tenho de aprender a cuidar de mim mesma porque se a gente não se cuidar, ninguém vai fazer nosso trabalho por nós. E isso, querido leitor, é muuuuuito difícil para meus neurônios processarem. Tá bom, existem ferramentas e especialistas que supostamente me ensinarão a caminhar novamente, mas você já tentou fazer uma coisa de um jeito diferente do que sempre faz? Ler um livro do fim para o começo, por exemplo?
Semana passada, sentada em um bar em uma longa noite de insônia, observei um bartender fazer meu coquetel. Os movimentos firmes, certos e precisos como só quem sabe o que está fazendo tem e, ao mesmo tempo, uma calma, um cálculo e tranquilidade em cada movimento, cada escolha de cada bebida que me absorveram. Eu poderia me perder nos movimentos dele e morrer de inveja ali mesmo porque eu não sei ser comedida. Eu quero seu tudo e eu dou meu tudo pra você. Sempre. E ainda não aprendi a fazer diferente. Mais do que isso, tenho medo de perder a Marília sendo qualquer outra coisa que não eu mesma.