Já procurei por toda parte: debaixo da cama, nas gavetas, nos armários, na cozinha, na garagem, no porta-luvas, nas bolsas, nos bolsos, dentro dos livros, no quartinho de bagunça, nas malas, dentro dos potes, nas caixas amareladas e agora no estojo e não consigo achar minha auto-estima. Saiu sem dar satisfação e até agora não voltou. Fico preocupada, pensando se ela vai voltar para casa ou se me abandonou sem deixar bilhete ou pelo menos dizer que ia comprar cigarro. Nem levou roupa, pode estar passando frio nessa chuva, ou ter encontrado outro lugar para morar. Podia pelo menos dar um telefonema, mandar mensagem ou emelho. Vai ver que voltou para o Brasil e está se acabando em uma praia (embora ela nunca tenha sido praieira). O jeito é esperar aqui do ladinho do telefone.
Pra que, eu te pergunto? Pra que o trabalho, o tempo, os livros, a terapia, o hospital, as mensagens, os remédios, os telefonemas, o messenger, os e-mails? Pra que tentar? Pra que explicar e pedir desculpas? Pra que continuar a colocar um pé diante do outro e recomeçar a cada manhã? Se o novo tem lugar cativo onde eu antes vivia, se eu não tenho justificativa melhor para o que eu fiz, e mesmo que eu tivesse... pra quê? E se isso importasse, nem eu saberia dizer. "Mas isso não importa mais não", não é mesmo?
"É mais fácil cultuar os mortos que os vivos Mais fácil viver de sombras que de sóis É mais fácil mimeografar o passado que imprimir o futuro..."
A primeira vez que pisei em um consultório de uma dotora da cabeça eu tinha 18 anos, planos para mudar o mundo e a certeza de que não pertencia a ele, confirmada por aqueles que me cercavam em casa, na igreja, nas festinhas e na faculdade. Onde eu pertencia, no entanto, ainda era uma idéia vaga.
"Não quero ser triste como o poeta que envelhece lendo Maiakóvski na loja de conveniência Não quero ser alegre como o cão que sai a passear com o seu dono alegre sob o sol de domingo..."
Passados os anos e alguns dos sonhos de grandeza, quando eu comecei a viajar e conhecer o mundo como só nos livros eu tinha imaginado, um mundo onde dinheiro não era problema, de festas e riquezas e novidades, achei por um tempo que minha vaga idéia de onde eu pertencia começava a tomar forma. Cidadã do mundo, sem casa, nem pertencimento.
"Nem quero ser estanque como quem constrói estradas e não anda Quero no escuro como um cego tatear estrelas distraídas"
Foi só alguns anos atrás que entendi o que eu precisava para pertencer a algum lugar. E, assim como a idéia demorou para tomar forma, demorei alguns anos para construir minha casa. Com visão. Com ajuda. Com companhia. Com amor.
"Veja o mundo passar como passa uma escola de samba que atravessa Pergunto onde estão teus tamborins? Sentado na porta de minha casa A mesma e única casa A casa onde eu sempre morei"
Alguém me contou que os romanos diziam que "nossa casa está onde está nosso coração". Hoje está tudo lá: a cadeira de balanço, os retratos na parede, a mesa onde servi amigos e estranhos, as almofadas costuradas à mão pela minha mãe, os pequenos artigos de decoração cuidadosamente alocados, as gavetas vazias e meus livros em uma caixa. Eu não moro mais lá, mas é lá onde eu sempre morei e ela sempre morou em mim.
Deixa-me cuidar de você como o bom samaritano. E te achar na estrada e cuidar de suas feridas com óleo e especiarias e perfume, uma a uma, até que elas se fechem e cicatrizem e não sejam nada mais do que uma leve lembrança da minha queda. E deixa eu vigiar teu sono, te cobrindo de beijos e abraços, te assegurando que a tempestade passou e chegou a hora do descanso. Deixa eu passear minhas mãos pelo teu corpo e recobrar a memória da tua pele e cheirar seus cabelos e me intoxicar com seu perfume. Deixa eu reparar o meu dano, o meu erro, minha queda e cantar minha verdade até que seus ouvidos consigam acreditar nela novamente. Deixa eu te conquistar, te cercar de carinhos, te cobrir com o que posso de oferecer. Não é muito, eu sei, mas é completamente teu.
Talvez o livro mais lido da Bíblia seja os Salmos, quase na totalidade atribuídos a Davi. E Davi é talvez o personagem mais falado e querido no Velho Testamento. Davi foi o rei humano, aquele que começou como pastor matando o gigante, o músico da corte do rei, o chefe dos exércitos, o que caiu nos encantos da mulher casada, e ainda assim, o homem "segundo o coração de Deus".
Davi tinha essa humanidade de começar um salmo dando louvores a Deus, chegar no meio e amaldiçoar os inimigos e terminar pedindo perdão a Deus, contrito. Foi ele quem perguntou "Por que estás atribulada, minha alma?" e foi ele também quem andou pelo vale da sombra da morte e não temeu, pois a vara e o cajado de Deus guiavam. A vara, para os pastores, é pra colocar as ovelhas no caminho e o cajado para ajudar na caminhada. Nenhum dos dois dá prazer, mas são eles que consolam o salmista.
Hoje eu entendo melhor o "não temerei mal nenhum". Na verdade, quando se está no vale, há pouco que possa ser pior do que estar lá, portanto não se teme o mal. Você começa a aprender a dar graças ao Deus que dá e toma de volta. E se contenta com o mistério, mesmo que não entenda.
Eu só sei amar cuidando. Na minha confusa cabeça, se eu amo uma pessoa, preciso dar a ela o melhor de mim: a melhor comida, a melhor casa, o melhor carinho, o melhor programa... e tudo absolutamente, intensamente, completamente, cem-por-centomente Marília. Foi assim que aprendi a amar e é assim que sei ser amada. Agora, depois de 35 anos, me falam que eu tenho de aprender a cuidar de mim mesma porque se a gente não se cuidar, ninguém vai fazer nosso trabalho por nós. E isso, querido leitor, é muuuuuito difícil para meus neurônios processarem. Tá bom, existem ferramentas e especialistas que supostamente me ensinarão a caminhar novamente, mas você já tentou fazer uma coisa de um jeito diferente do que sempre faz? Ler um livro do fim para o começo, por exemplo?
Semana passada, sentada em um bar em uma longa noite de insônia, observei um bartender fazer meu coquetel. Os movimentos firmes, certos e precisos como só quem sabe o que está fazendo tem e, ao mesmo tempo, uma calma, um cálculo e tranquilidade em cada movimento, cada escolha de cada bebida que me absorveram. Eu poderia me perder nos movimentos dele e morrer de inveja ali mesmo porque eu não sei ser comedida. Eu quero seu tudo e eu dou meu tudo pra você. Sempre. E ainda não aprendi a fazer diferente. Mais do que isso, tenho medo de perder a Marília sendo qualquer outra coisa que não eu mesma.