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    Descanso meu estojo


    da série: só louco entende

    Parece mentira, mas quando você se interna em um hospital mental não imagina que vai conviver com pessoas esquizofrênicas, bipolares, traumatizadas, cheias de tiques e taques. Você pensa assim que vai para uma "casa de repouso", meio tentando se auto-enganar. Basta chegar na triagem que você percebe que o negócio é mais embaixo: tem revista de cada peça de roupa, cortam os cordões das suas calças, te tiram os pentes, os anéis, o dinheiro, os cadarços, as xuxinhas de cabelo, o xampu, o sabonete em barra, a borracha... e vão te tirando tudo até que fique só você e a sua loucura. E a dos outros, obviamente. É meio maluco (sem trocadilho) que das coisas com as quais eles ficaram, minhas pantufas sejam o que mais me fazem falta. Sim, porque minhas pantufas eram meu pedacinho de casa no manicômio, minha "trademark", gostoso ficar olhando pras luzinhas piscando quando eu fazia barulho. Acima de tudo, minhas pantufas eram alegres e isso não se encontra em "casas de repouso". Não adianta, já procurei por todo canto e não encontro nada a altura. Esse inverno promete.



    Escrito por má com acento mesmo às 00:16
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    Minha vida sem mim

    Meu Natal não tem árvore, nem guirlanda, nem presépio, nem beijo debaixo do musgo, nem peru, nem panetone, nem lareira, nem chaminé para o Papai Noel entrar, nem meias para encher, nem cartões, nem música com harpa ou a Simone cantando, nem enfeites, nem countdown. É praticamente um natal judeu.



    Escrito por má com acento mesmo às 16:55
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    Vamos chamar o vento

    O amor me olhou nos olhos e disse:

    - Seu cabelo está bonito assim.

    Ao que eu respondi:

    - Deve ter sido o vento de 300km/h que me deu uma rasteira ali fora agorinha mesmo.

    For future reference, o amor gosta do vento brincando com meus cabelos.



    Escrito por má com acento mesmo às 18:25
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    Santa is coming to town

    Today's Cartoon

    Dear Santa,

    Sorry for waiting until the last minute to write my X-mas list but you know that this has been a crappy year, especially now that Comcast decided to actively sabotage my plans to get in touch with anyone online (I thought you should know just in case they sent you a list themselves). Anyway, there are some things I intended to buy for me but didn't, so I included them on my list, since you know that, even though I made many horrible decisions this year and did not focus on myself, now I have been a good girl and am following the program. You do not need to grand me everything but I just wanted to give you some options:

    The first thing I'd really like is an I-phone since my current mobile is dying from an unknown cause and is most likely to abandon me quite soon. Then, there are the yoga mat and ball (not the pink ones, though. You know quite well that is not my color).  I could also use new black sneakers since the ones I had got tainted during my hospitalization and finally, a bathroom scale so that I can count the kilos I did not lose and a new watch to help me keep track of all my new EA meetings and support groups.

    I want to thank you for the wonderful friends I have who, even from far, make a point to check on me every single day. Please look on their list with love and care.

    Yours truly,

    M



    Escrito por má com acento mesmo às 20:38
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    Certas canções que ouço...

    tears.jpg tears image by Bluepeep88

    "When somebody loved me,
    Everything was beautiful.
    Every hour we spent together,
    Lives within my heart.

    And when she was sad,
    I was there to dry her tears,
    And when she was happy so was I.
    When she loved me.

    Through the summer and the fall,
    We had each other that was all.
    Just she and I together,
    Like it was meant to be.

    And when she was lonely,
    I was there to comfort her,
    And I knew that she loved me."



    Escrito por má com acento mesmo às 20:28
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    Onde está o Wally?

    Já procurei por toda parte: debaixo da cama, nas gavetas, nos armários, na cozinha, na garagem, no porta-luvas, nas bolsas, nos bolsos, dentro dos livros, no quartinho de bagunça, nas malas, dentro dos potes, nas caixas amareladas e agora no estojo e não consigo achar minha auto-estima. Saiu sem dar satisfação e até agora não voltou. Fico preocupada, pensando se ela vai voltar para casa ou se me abandonou sem deixar bilhete ou pelo menos dizer que ia comprar cigarro. Nem levou roupa, pode estar passando frio nessa chuva, ou ter encontrado outro lugar para morar. Podia pelo menos dar um telefonema, mandar mensagem ou emelho. Vai ver que voltou para o Brasil e está se acabando em uma praia (embora ela nunca tenha sido praieira). O jeito é esperar aqui do ladinho do telefone.



    Escrito por má com acento mesmo às 23:07
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    What for?

    Pra que, eu te pergunto? Pra que o trabalho, o tempo, os livros, a terapia, o hospital, as mensagens, os remédios, os telefonemas, o messenger, os e-mails? Pra que tentar? Pra que explicar e pedir desculpas? Pra que continuar a colocar um pé diante do outro e recomeçar a cada manhã? Se o novo tem lugar cativo onde eu antes vivia, se eu não tenho justificativa melhor para o que eu fiz, e mesmo que eu tivesse... pra quê? E se isso importasse, nem eu saberia dizer. "Mas isso não importa mais não", não é mesmo?



    Escrito por má com acento mesmo às 17:50
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    Minha casa

    "É mais fácil cultuar os mortos que os vivos
    Mais fácil viver de sombras que de sóis
    É mais fácil mimeografar o passado que imprimir o futuro..."

    A primeira vez que pisei em um consultório de uma dotora da cabeça eu tinha 18 anos, planos para mudar o mundo e a certeza de que não pertencia a ele, confirmada por aqueles que me cercavam em casa, na igreja, nas festinhas e na faculdade. Onde eu pertencia, no entanto, ainda era uma idéia vaga.

    "Não quero ser triste como o poeta que envelhece lendo Maiakóvski na loja de conveniência
    Não quero ser alegre como o cão que sai a passear com o seu dono alegre sob o sol de domingo..."

    Passados os anos e alguns dos sonhos de grandeza, quando eu comecei a viajar e conhecer o mundo como só nos livros eu tinha imaginado, um mundo onde dinheiro não era problema, de festas e riquezas e novidades, achei por um tempo que minha vaga idéia de onde eu pertencia começava a tomar forma. Cidadã do mundo, sem casa, nem pertencimento. 

    "Nem quero ser estanque como quem constrói estradas e não anda
    Quero no escuro como um cego tatear estrelas distraídas"

    Foi só alguns anos atrás que entendi o que eu precisava para pertencer a algum lugar. E, assim como a idéia demorou para tomar forma, demorei alguns anos para construir minha casa. Com visão. Com ajuda. Com companhia. Com amor.

    "Veja o mundo passar como passa uma escola de samba que atravessa
    Pergunto onde estão teus tamborins? Sentado na porta de minha casa
    A mesma e única casa
    A casa onde eu sempre morei"


    Alguém me contou que os romanos diziam que "nossa casa está onde está nosso coração". Hoje está tudo lá: a cadeira de balanço, os retratos na parede, a mesa onde servi amigos e estranhos, as almofadas costuradas à mão pela minha mãe, os pequenos artigos de decoração cuidadosamente alocados, as gavetas vazias e meus livros em uma caixa. Eu não moro mais lá, mas é lá onde eu sempre morei e ela sempre morou em mim.



    Escrito por má com acento mesmo às 01:18
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    My plea

    Deixa-me cuidar de você como o bom samaritano. E te achar na estrada e cuidar de suas feridas com óleo e especiarias e perfume, uma a uma, até que elas se fechem e cicatrizem e não sejam nada mais do que uma leve lembrança da minha queda. E deixa eu vigiar teu sono, te cobrindo de beijos e abraços, te assegurando que a tempestade passou e chegou a hora do descanso. Deixa eu passear minhas mãos pelo teu corpo e recobrar a memória da tua pele e cheirar seus cabelos e me intoxicar com seu perfume. Deixa eu reparar o meu dano, o meu erro, minha queda e cantar minha verdade até que seus ouvidos consigam acreditar nela novamente. Deixa eu te conquistar, te cercar de carinhos, te cobrir com o que posso de oferecer. Não é muito, eu sei, mas é completamente teu.



    Escrito por má com acento mesmo às 00:21
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    Pra que é que serve uma canção como esta?



    Escrito por má com acento mesmo às 22:33
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    The valley of the shadow of death

    Talvez o livro mais lido da Bíblia seja os Salmos, quase na totalidade atribuídos a Davi. E Davi é talvez o personagem mais falado e querido no Velho Testamento. Davi foi o rei humano, aquele que começou como pastor matando o gigante, o músico da corte do rei, o chefe dos exércitos, o que caiu nos encantos da mulher casada, e ainda assim, o homem "segundo o coração de Deus".

    Davi tinha essa humanidade de começar um salmo dando louvores a Deus, chegar no meio e amaldiçoar os inimigos e terminar pedindo perdão a Deus, contrito. Foi ele quem perguntou "Por que estás atribulada, minha alma?" e foi ele também quem andou pelo vale da sombra da morte e não temeu, pois a vara e o cajado de Deus guiavam. A vara, para os pastores, é pra colocar as ovelhas no caminho e o cajado para ajudar na caminhada. Nenhum dos dois dá prazer, mas são eles que consolam o salmista.

    Hoje eu entendo melhor o "não temerei mal nenhum". Na verdade, quando se está no vale, há pouco que possa ser pior do que estar lá, portanto não se teme o mal. Você começa a aprender a dar graças ao Deus que dá e toma de volta. E se contenta com o mistério, mesmo que não entenda.



    Escrito por má com acento mesmo às 02:14
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    Aprendendo a aprender

     

    Eu só sei amar cuidando. Na minha confusa cabeça, se eu amo uma pessoa, preciso dar a ela o melhor de mim: a melhor comida, a melhor casa, o melhor carinho, o melhor programa... e tudo absolutamente, intensamente, completamente, cem-por-centomente Marília. Foi assim que aprendi a amar e é assim que sei ser amada. Agora, depois de 35 anos, me falam que eu tenho de aprender a cuidar de mim mesma porque se a gente não se cuidar, ninguém vai fazer nosso trabalho por nós. E isso, querido leitor, é muuuuuito difícil para meus neurônios processarem. Tá bom, existem ferramentas e especialistas que supostamente me ensinarão a caminhar novamente, mas você já tentou fazer uma coisa de um jeito diferente do que sempre faz? Ler um livro do fim para o começo, por exemplo?

    Semana passada, sentada em um bar em uma longa noite de insônia, observei um bartender fazer meu coquetel. Os movimentos firmes, certos e precisos como só quem sabe o que está fazendo tem e, ao mesmo tempo, uma calma, um cálculo e tranquilidade em cada movimento, cada escolha de cada bebida que me absorveram. Eu poderia me perder nos movimentos dele e morrer de inveja ali mesmo porque eu não sei ser comedida. Eu quero seu tudo e eu dou meu tudo pra você. Sempre. E ainda não aprendi a fazer diferente. Mais do que isso, tenho medo de perder a Marília sendo qualquer outra coisa que não eu mesma.



    Escrito por má com acento mesmo às 22:51
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    Sua estupidez não lhe deixa ver

    A estúpida pessoa que vos escreve viu o CD ao vivo da Roberta Sá lá na prateleira, acenando pra mim, todo novinho, cheio de plástico difícil de abrir e tudo, e o que fez? Pensou, "eu tenho os outros, não preciso deste". A resposta, no entanto, estava: ERRADA! Roberta Sá nunca é demais. Nunca! Agora, espera chegar no Amazon e sofre enquanto os outros têm e você não.


    Não é fenômeno novo esse da língua portuguesa e não deveria me incomodar tanto, mas incomoda. Tá mais difuso, mais comum, mais hororroso nos meus ouvidos. A nova gramática oral portuguesa usa pronome pessoal e... pronome pessoal de novo juntinho com relativo na mesma frase assim, ó: A Má é uma pessoa que ela está em crise. 

    Eu sei, você está balançando a cabeça e dizendo "Isso eu nunca ouvi". Ouviu sim. Pare aí e ouça agora mesmo. E grite por mim e por você.


    Vou logo avisando, o excelentíssimo presidente desta democracia hipócrita declarou solenemente que não há crise nos Istaites. BS!!! Eu AINDA estou em crise, apesar da tecnologia, da modernidade e das apostas contrárias.


    Enquanto isso, no lado B, a amiga salvou um dia insalvável. Sim, esse eu cunhei mas não tem direitos autorais. Pode usar.



    Escrito por má com acento mesmo às 00:00
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    mas isso não importa mais não

    Eu nunca tinha entendido o motto: viver um dia de cada vez. Agora, depois de muito sofrimento e leitura e portas na cara, acho que entendo. A gente vive nesse lema porque na verdade não há futuro. Não há planos para amanhã, nem pra o fim de semana, nem o próximo feriado, nem sequer férias. Há o nada e a gente se acostuma a viver com o nada porque na verdade o nada é a única coisa que nos resta. Acordar a cada manhã e conseguir levantar da cama é a vitória suprema. E daí, é um passo na frente do outro. Certamente é um estilo diferente para quem sempre foi ligada na tomada, mas não há alternativa. Minto; a alternativa é não viver.



    Escrito por má com acento mesmo às 01:17
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    911 Call Chuck Norris

    Alguns anos atrás, enquanto eu morava na Polônia, acordei no meu prédio antigo, cheio de famílias ricas, velhas e não tão limpas, com barulho de furadeiras. Me empacotei o melhor que pude para enfrentar a temperatura de menos 25C e saí do prédio, acreditando veementemente que um homicídio havia ocorrido. Faixas amarelas cercando o edifício, policiais e uma pequena multidão me esperavam do lado de fora. Em Varsóvia, falar inglês é mais do que uma especialidade, é uma raridade, eu diria. Meio frustrada eu saio para comprar minhas tulipas, como em toda quinta-feira. Ao voltar, encontro o Sr. Steven Seagal filmando uma parte de sua nova aventura. Ali, no meu prédio, um andar abaixo.

    Agora, esse mesmo Steven Seagal estréia um seriado de TV (Lawman) no qual ele, o ator, é também um policial. Gordo, velho e mais vermelho do que eu consigo me lembrar. Depois do Governador Schwarzenegger, o que nos resta senão um super-herói-policial? É a arte imitando a vida. Ou será o final dos tempos?



    Escrito por má com acento mesmo às 22:54
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